Umlaut - Umlaut

Umlaut
Umlaut
(Amphead; 2009)







Uma das minhas maiores tristezas no campo da música foi o fim do Mr. Bungle. Sendo minha banda preferida de todos os tempos, não foi fácil aceitar o fato, ainda mais sabendo que seus membros não estavam decadentes e que pelo menos mais uns três discos sensacionais poderiam sair daquela combinação de membros. Com o fim do grupo, vimos seus dois compositores principais, Mike Patton e Trey Spruance, seguindo adiante: o primeiro com inúmeras bandas e o segundo focando seu trabalho no Secret Chiefs 3. E confesso que não dei a menor bola quando descobri que Bär McKinnon, responsável principalmente pelo sax no Mr. Bungle, estava montando uma nova banda na Austrália para tocar suas composições. Por algum motivo, na minha cabeça, não o considerava um membro tão importante assim no grupo, mesmo ele tendo colaborado em várias canções.

Mas eu não poderia estar mais enganado. Nessa semana finalmente surgiu por aí o disco de estreia do Umlaut, a banda de Bär. Andei obcecado pelas quatro canções que a banda colocou em seu Myspace e nem preciso dizer o quão obcecado estou pelo álbum inteiro agora que o ouvi. Por incrível que pareça, esse é o trabalho pós-Bungle feito por um de seus membros que mais se aproxima da sonoridade da banda, pra minha grande alegria.

A faixa instrumental “Kitty Puppy” abre o disco em grande estilo. Guitarra, baixo e bateria fazem um rock quase normal, mas o espetáculo fica por conta dos arranjos de teclado, flauta e vibrafone. Na sequência ouvimos “Atlas Face”, com participação de Mike Patton. Uma das grandes faixas do disco e uma das melhores que ouvi nesse ano. Em menos de três minutos, Patton entrega um vocal que vai do grave ao agudo em milésimos de segundo, com direito a segundas e terceiras vozes, gravadas por ele mesmo, criando camadas e mais camadas ao fundo. É uma música que gruda na cabeça.

 “The Mistaken Power” é lenta e tem alguns dos arranjos mais bonitos do Umlaut. Fiquei realmente surpreso com a capacidade de Bär em fazer melodias levemente esquisitas mas sem deixar a pegada pop de lado. “Dirty Dishes” é a primeira faixa na qual ouve-se o vocal da própria banda. Que não decepciona, é bom dizer. Aqui, não sei dizer se é Bär ou se há um outro vocalista, mas dá pra dizer que há influência de Patton no estilo de cantar. Por mim, tudo bem. Com refrão pop, é uma das mais fáceis de serem assimiladas de primeira.

Chegamos ao meio do disco com “Living The Dream”, que lembra bastante alguns momentos do Bungle. A música começa com um piano de cravo e um bonito arranjo de flauta, pra logo cair em uma parte circense. “Bigfoot Is Real” soa como um Secret Chiefs 3 (Bär fez parte da banda) menos esquizofrênico. Mais uma vez, o uso do vibrafone com os teclados funciona muito bem, assim como os maravilhosos solos de sax que aparecem de vez em quando.

Música mais leve e engraçadinha do disco, “Work Truck” mostra um sujeito convidando uma garota para dar uma volta em sua caminhonete de trabalho, que ele descolou para usar no fim de semana. É um rock simples e direto que dura dois minutos e dezessete segundos, preparando o ouvinte para a sensacional “The Horrible Things We Say”, que chega a lembrar o estilo clássico – mas não-ortodoxo – de compositores como Burt Bacharach e Henry Mancini. “Chill Pill (Soy Ta Lahtoe)” é brilhante e um dos destaques do álbum. A voz pergunta: “why don’t you take a chill pill?” enquanto arranjos semi-tensos soam ao fundo. Quando chega o refrão tudo se acalma e ouvimos a frase “everything’s gonna be alright”. O melhor da faixa é a alternância entre os momentos calmos e carregados. 

“Buttons” também lembra Secret Chiefs 3, principalmente pelo fato da música se basear num ritmo eletrônico e teclados leves para mais tarde cair numa base com guitarras distorcidas. É a mais longa do disco e outra faixa de extrema beleza. Enquanto isso, “Dain Bramage” tem cara de final e, não por acaso, foi a escolhida para o fechamento do álbum.

Um ouvinte desatento pode dizer que o álbum de estreia do Umlaut é um daqueles que se apoia principalmente em bateria, baixo, guitarra e teclado. Mas é graças aos arranjos de sax, flauta, vibrafone e outros instrumentos que Bär McKinnon conseguiu alcançar um resultado extraordinário. Fico muito feliz em poder ouvir um álbum em 2009 que soa como algumas coisas do Mr. Bungle. Afinal, são 10 exatos anos desde o lançamento do California, o último disco do grupo. É óbvio que Bär sente falta de sua antiga banda, algo que inclusive já foi dito por ele em entrevistas. Mas, em vez de ficar pensando em uma reunião que provavelmente jamais vai acontecer, Bär juntou alguns músicos na Austrália e fez um grande disco de estreia com suas próprias composições, provando que não era mero coadjuvante no Bungle. Umlaut, o álbum, é uma pepita de ouro que os grandes meios provavelmente irão ignorar neste ano. Portanto, não faça parte desse grupo e vá correndo ouvir esse maravilhoso trabalho.

- Six

Nota: